quarta-feira, 22 de abril de 2015

A menina e o pássaro encantado

Em conversa com minha aluna, Jéssica Assis, amante e escritora de poesias também, acabei falando desse espaço aqui, abandonado ao longo desses últimos anos. Papear com Jéssica me fez refletir sobre esse abandono e suas possíveis causas. Desde que entrei pro mestrado que não escrevo por aqui... Tanta coisa mudou, tanta coisa nasceu e outras tantas morreram...
Diante de todas essas transformações, resolvi postar aqui um conto que me faz ficar triste e feliz ao mesmo tempo. Porque é assim que eu me sinto em relação ao meu pássaro encantado, a cada vez que ele se vai e a cada vez que ele retorna... Gosto pra caramba desse pássaro de penas revoltas. E também odeio gaiolas... Talvez, então, deva aprender a viver de saudade em saudade.


domingo, 29 de dezembro de 2013

A girafa e o rinoceronte


Há muito, muito tempo, a girafa era um animal igual aos outros, com um pescoço de tamanho normal. Houve então uma terrível seca. Os animais comeram toda a erva que havia, até mesmo as ervas secas e duras, e andavam quilómetros para ter água para beber. 
Um dia, a Girafa encontrou o seu amigo Rinoceronte. Estava muito calor e ambos percorriam lentamente o caminho que levava ao bebedouro mais próximo e lamentavam-se.
- Ah, meu amigo - disse a Girafa, - vê só... Tantos animais a escavar o chão à procura de comida... Está tudo seco, mas as acácias mantêm-se verdes.
- Hum, hum - disse o Rinoceronte (que não era - e ainda não é - muito falador).
- Seria tão bom - disse a Girafa - poder chegar aos ramos mais altos, às folhas tenras. Há muita comida mas não conseguimos lá chegar porque não conseguimos subir às árvores.
O Rinoceronte olhou para cima e concordou, abanando a cabeça:
- Talvez devêssemos ir falar como o Feiticeiro. Ele é sábio e poderoso.
- Que bela ideia! - disse a Girafa. - Sabes onde fica a casa do Feiticeiro?
O Rinoceronte acenou afirmativamente e os dois amigos dirigiram-se para a casa do Feiticeiro após matarem a sede.
Depois de uma caminhada longa e cansativa, os dois chegaram a casa do Feiticeiro e explicaram-lhe ao que vinham.
Depois de os ouvir, o Feiticeiro deu uma gargalhada e disse:
- Isso é muito fácil. Voltem amanhã ao meio-dia e eu dar-vos-ei uma erva mágica. Ela fará com que os vossos pescoços e as vossas pernas cresçam. Assim, poderão comer as folhas tenras das acácias.
No dia seguinte, só a Girafa chegou à cabana na hora marcada. O Rinoceronte, que não era lá muito esperto, encontrou um tufo de erva ainda verde e ficou tão contente que se esqueceu do compromisso.
Cansado de esperar pelo Rinoceronte, o Feiticeiro deu a erva mágica à Girafa e desapareceu. A Girafa comeu sozinha uma dose preparada para dois. Sentiu imediatamente uma sensação estranha nas suas pernas e pescoço e viu que o chão estava a afastar-se rapidamente. “Que engraçado!” pensou a Girafa, fechando os olhos pois começava a sentir-se tonta.
Passado algum tempo abriu lentamente os olhos. Como o mundo tinha mudado! As nuvens estavam mais perto e ela conseguia ver longe, muito longe. A Girafa olhou para as suas longas pernas, moveu o seu pescoço longo e gracioso e sorriu. À sua frente estava uma acácia bem verdinha... A Girafa deu dois passos e comeu as suas primeiras folhas.
Após terminar a sua refeição, o Rinoceronte lembrou-se do compromisso e correu o mais depressa que pôde para a casa do Feiticeiro. Tarde demais! Quando lá chegou já a Girafa comia, regalada, as folhas da acácia. 
Quando o feiticeiro lhe disse que já não havia mais ervas mágicas, o Rinoceronte ficou furioso, pois pensou que tinha sido enganado e não que fora o seu enorme atraso que o tinha prejudicado. Tão furioso ficou que perseguiu o Feiticeiro pela savana fora. 
Diz-se que foi a partir desse dia que o Rinoceronte, zangado com as pessoas, as persegue sempre que vê uma perto de si.


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Porque as girafas, a despeito de toda sua elegância e graciosidade podem sim, gostar desses simpáticos tanquezinhos de guerra, míopes e, por vezes, mal humorados... Mas nunca tapados! Pra uma girafa, um rinoceronte pode ser apenas um fofo Quindim! 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Como um açougue

É, no mínimo, interessante que as portas desse singular estabelecimento tenham sido reabertas quase um ano após seu último dia de funcionamento.
Trata-se de um comércio exótico, baseado na venda de carnes exóticas para atender à demandas de clientela não menos exótica.
Ali, encontra-se de tudo: das vísceras ao filé mignon.
A quem prefira cortes mais nobres, sonhando em se refestelar com a carne macia e saborosa.
A quem prefira os miolos, pois dizem que possuem propriedade de alimentar o cérebro de quem os come.
Há outros, ainda, que desejam os genitais, seguindo a mesma premissa daqueles que procuram miolos: julgam certo, o aumento de sua própria potência sexual.
E há aqueles que pedem o coração. Dizem que picadinho e refogado em azeite e cebola é iguaria infalível para a cura das dores deixadas por amores desfeitos ou não correspondidos.
O curioso é que nenhum dos habituais clientes dessa loja procuram ou jamais parecem ter procurado saber de qual animal provém esses cortes: do que se alimenta, como vive ou quanto tempo vive até o abate inevitável. Alimentam-se de suas carnes, buscando suprir necessidades ou satisfações pessoais, evitando pensar que aquilo que compram, um dia teve vida.
Mais fácil assim, não é mesmo? Vida que segue...

domingo, 30 de dezembro de 2012

Catalisando 2012...

Antes que eu enlouqueça de vez nesse calor saariano, preciso escrever sobre isso tudo.  Ainda que saia confuso, fruto de um impulso de sobrevivência ou, quando nada, da sobrevivência de algum traço de alguma sanidade... 
2012 foi um ano difícil (tem sido... até a meia noite do dia 31, ele ainda se arrasta).  Foi um ano em que eu briguei demais, saí de mim, perdi o eixo, perdi o foco... quase me perdi de mim...  Briguei contra meu trabalho, que já não me traz mais satisfação e me questiono se, algum dia, me trouxe de fato.  Briguei contra meus impulsos, que pareceram irascíveis demais nesse ano.  Briguei contra a doença, contra o desânimo, contra a descrença... Contra moinhos de vento reais ou imaginários... Gritei, xinguei, esperneei, surtei... quase sucumbi. 
Conheci pessoas diferentes de mim, que tiveram o dom ou o poder de provocar implosões em algumas das minhas barreiras, catalisar minhas crises, aliviar algumas tensões... Sou capaz de apostar que a maioria delas não imagina que foram capazes de tamanha influência sobre mim.  Naqueles momentos em que vinha a vontade de jogar tudo pro alto, lá estava um esporro, uma piada, um comentário casual e despretensioso, uma bobagem dita, uma brincadeira doida... Enfim, algo que me fazia parar e repensar minhas escolhas e perceber a extensão do meu poder de decisão.
Conheci mais dos meus amigos e a eles devo a maioria esmagadora das coisas boas que aconteceram comigo nesse ano!  Ai, ai... como me senti amada por eles!  Nem que eu vivesse 100, 200... 1000 anos e dominasse todas as palavras bonitas da Língua Portuguesa, eu poderia agradecer a eles por tudo o que fizeram por mim nesse complicado 2012.  Espero que todos vocês se sintam abraçados e que eu tenha milhões de oportunidades, ainda nessa vida, para mostrar o quanto eu os amo também!
Conheci mais sobre mim mesma e toda a extensão e resistência dos meus sentimentos.  Besteira ainda acreditar que tudo vai se modificar como em um passe de mágica, piscando os olhos como que acorda de um sonho... Tem muita coisa aí que ainda não sei explicar.  Talvez sejam coisas que não tenham mesmo explicação, ao nível da minha "vã filosofia..."  Tenho que aprender a lidar com elas, afinal: lá se vão mais de 4 anos...  Quantos outros ainda virão?  Às vezes acho que é um tempo que não cabe em uma vida.  Outras vezes, duvido disso.  Buscar o equilíbrio: essa talvez seja uma missão pra 2013.  Quem sabe?
Enfim, encerro esse pesado ano com um pouco mais de leveza.  Continuo sendo a mesma criatura meio estranha: medo de avião, insetos voadores e solidão.  Mas, especialmente depois dos últimos meses, algo em mim se modificou e acho que estou numa fase mais positiva.  Sei lá dos desafios que 2013 me reserva...  Espero estar aqui, daqui a 366 dias, para poder esboçar outra reflexão barata sobre isso...  

domingo, 28 de outubro de 2012

Duas montanhas

Quando puder, enfim, olhar
pela janela do meu futuro
e avistar os cumes coroados de neve
daquelas duas montanhas
minha alma estará em paz...
Pois bem no íntimo
ela saberá que a espera de toda uma vida 
terá chegado ao fim.
E toda aquela certeza interior,
arrastada como uma bagagem duvidosa,  
fará algum sentido.
Ali, no sábio silêncio, 
daquelas duas montanhas nevadas,
quando a distância imposta pelos vales,
quando a distância imposta pela vida
já não for mais tão significativa para elas
quando o tempo tiver se encarregado
de apaziguar todas as tempestades,
afastar todo medo,
ali, onde o fim encontra o recomeço
é quando encontrarei em paz...

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domingo, 16 de setembro de 2012

Canteiros

Quando penso em você, fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa, menos a felicidade
Correm os meus dedos longos, em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego, já me traz contentamento
Pode ser até manhã, cedo claro, feito dia
Mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter do mato, um gosto de framboesa
Para correr entre os canteiros e esconder minha tristeza
Que eu ainda sou bem moço para tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida
Pois se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta, moço, sem ter visto a vida.

                                                                 Cecília Meireles

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sábado, 11 de agosto de 2012

Nós

Para onde nós fomos
deixando pra trás somente nós
em meio a tantos delicados laços esgarçados
pelo fel das cobranças?
Sim, para onde nós fomos
quando mais precisamos um do outro?
Quando as provas se tornam duras?
Quando os dias se tornam curtos demais?
Quando as noites se arrastam em insônias intermináveis?
Quando tudo o que parece restar é a caridade fria de um estranho?  
Quanto de nós ainda existe?
Quanto ainda resistirá até o fim?
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